terça-feira, 27 de abril de 2010

O que não foi entregue

Como não mentir? Eu sei que a verdade lhe machucará, e me fará sofrer mais por lhe ver triste por minha causa. Além do mais, sou fraca demais para lhe dizer face a face este discurso, ao primeiro sinal de reprovação seu, eu desistiria, fora toda minha exposição. Então o transformei em carta.

Com tudo que aconteceu entre nós, todos os conflitos, sinto que você se afastou de mim. Nossa... Como sinto sua falta! Como sinto falta do seu orgulho por ter uma filha como eu. É triste como um mero detalhe pode afetar isso. Você sempre foi a pessoa que eu nunca quis me desgrudar, não conseguia nem viajar porque ficaria longe de você. Hoje, tenho medo de perder-lhe de vez. Do que adianta enfrentar o mundo se eu não a terei do meu lado? E foi isso que sempre importou pra mim, tanto você, quanto meu pai. Mas era com você com quem eu vivia agarrada. Mãe é mãe!

Eu decidi lhe falar isso porque me sinto só. Meu pai, a cada dia, parece mais próximo de mim, mas ele finge que nada aconteceu. Você parece estar distante, mas começa a se aproximar, e alguma coisa acaba acontecendo, e você se afasta de novo. E fica nesse vai-vém.

Eu agradeço, mãe, por você estar bem comigo atualmente! Cada dia que acordo, e vejo um sorriso seu, eu ganho o dia. Angustio-me antes de lhe entregar essa carta, pois sinto que esse elo será destruído mais uma vez. Mas da próxima vez, espero que ele não quebre nunca mais, que essa seja a última. Ou é isso, ou eu não sei.

Acordo todos os dias tentando encontrar um motivo pra continuar vivendo assim. Trabalhar, estudar, ser alguém na vida, só importa se você está bem consigo mesmo e com quem você ama, se não, que tipo de felicidade estaria querendo alcançar? Por isso meu desânimo ultimamente. Se minha própria mãe, a pessoa que mais me ama no mundo, não tem orgulho de mim, o que mais importa?

O único problema é que venho perdendo-me psicologicamente. Não sei quanto tempo aguento ainda viver assim. Eu já morri por dentro. Por favor, salve-me! Não de quem eu sou, ou de quem me tornei, mas de quem eu nunca fui, e de viver sem teu orgulho, afeto, amor. Não agüento mais viver uma mentira. Estou morrendo.

Isso é um apelo, por favor, mãe, seja feliz comigo. Permita-nos ser feliz, orgulhe-se de mim. Você me conhece de verdade.


Eu te amo muito, suficientemente para não lhe entregar esta que escrevo, pois sei que lhe traria profunda dor.

Um comentário:

Tassyane disse...

Lao, entendendo bem a carta que escrevestes não posso nem dizer que é lindo. Pois é triste. É profundo e ainda penso como teve a coragem de escrever e colocar aqui. Eu nao tenho.
Estou emocionada e sim, minhas lágrimas rolam por infelizmente ver nesse teu desabafo um espelho para mim, pois sinto o mesmo.
Beijo!